quinta-feira, 21 de julho de 2011

A luta das Mulheres por igualdade no mercado de trabalho

No dia 02 de julho, realizou-se em Caxias do Sul o II Encontro Municipal da Marcha Mundial das Mulheres. A parte da manhã ficou reservada para um debate com a sociedade, sobre o tema “Mulher e Mercado de Trabalho”, que contou com a participação de Estela Villanova – militante da MMM e integrante do Núcleo Feminista Lua Nova Guayí e Natália Pietra Méndez – professora do curso de história e integrante do Observatório do Trabalho da UCS.

O painel contou com a participação de representantes da sociedade civil, lideranças sindicais e comunitárias, conselheiras do COMDIM, movimento estudantil, pastoral da juventude, economia solidária, além de representantes do Poder Público e mandatos parlamentares.

Para introduzir o debate, foi passado o vídeo “Mulheres Invísiveis”, que retrata a estrutura da divisão sexual do trabalho. O vídeo denuncia a hierarquia estabelecida pelo capitalismo entre o trabalho tido como produtivo (esfera pública, do mercado) e o trabalho tido como reprodutivo (esfera privada, do cuidado, da família), como se um não dependesse do outro, e não fossem igualmente importantes para o desenvolvimento da humanidade.

A Profa. Natália iniciou a discussão, trazendo os levantamentos do ‘Boletim Mulher e Mercado de Trabalho’ do Observatório do Trabalho da UCS que realizou pesquisa com dados da última década (1999 à 2009) em Caxias do Sul.

A pesquisa abrange apenas o mercado formal de trabalho, e traz dados assustadores. Caxias do Sul tem sua economia centrada no setor metalúrgico, que privilegia a mão-de-obra masculina. Mesmo assim, as mulheres representam 42% do mercado formal de trabalho em Caxias, e ingressam nestes setores recebendo os menores salários oferecidos pelo Mercado. Constatou-se que apesar do significativo aumento de mulheres no mercado formal de trabalho na última década, isso não significa que o número de homens tenha diminuído. O que ocorre, na realidade, é que as mulheres estão ocupando os espaços que foram abandonados pelos homens, principalmente em decorrência da baixa remuneração.

Constatou-se também que aproximadamente 60% das mulheres com vínculo empregatício no mercado formal, estão concentradas na faixa salarial de até 2 s.m., enquanto não chega a 30% as que percebem mais de 11 s.m. Ademais, a remuneração auferida pelas mulheres oscilou na faixa de 54,4% a 57,1% da renda masculina no setor da indústria (superando a média nacional de desigualdade salarial (30%).

Por fim, a pesquisa mostra também, que as mulheres são mais escolarizadas que os homens, no entanto, tal escolarização não tem servido para alcançar a equiparação salarial no mercado de trabalho, serve apenas para permitir a entrada das mulheres no mercado formal, pois as que não possuem qualificação escolar, acabam por permanecer na informalidade.

Importante ressaltar que os dados levantados são relativos a mulheres brancas. Quando se fala em mulheres negras os índices são ainda piores. Para a mulher negra é mais difícil tanto a entrada no mercado de trabalho como o ingresso nos melhores postos.

Também é muito preocupante as estatísticas em relação à juventude. A entrada dos jovens no mercado de trabalho ocorre de forma precária e nas piores condições. São vítimas do grande dilema da experiência para o trabalho. Precisam estudar para se qualificar, mas precisam trabalhar para sobreviver. Ganhando baixos salários, não conseguem estudar e trabalhar, sendo obrigados a abandonar, muitas vezes, os estudos.

Estela Villanova trouxe dados relacionados ao mercado informal de trabalho, especificamente sobre a Economia Solidária.

Diferentemente do que muitos pensam, os empreendimentos da ECOSOL não são formados majoritariamente por mulheres. Um mapeamento feito recentemente mostrou que as mulheres representam apenas 37% dos empreendimentos.

Percebe-se que mesmo na Economia Solidária existe latente desigualdade de gênero no que tange a formação dos grupos de trabalho. Os empreendimentos maiores, formados por mais de 20 pessoas, e, portanto, que acabam tendo mais oportunidades de renda (metalurgia, vinícolas...) são formados na sua grande maioria por homens. Por outro lado, os empreendimentos menores, ligados à alimentação, artesanato entre outros, que infelizmente não percebe grande rotatividade financeira, são compostos por mulheres.

É preciso analisar os motivos existentes atrás dos dados constatados. É fato que após muita luta do movimento feminista, e de avanços em políticas públicas para as mulheres, abriram-se diversos campos no mercado de trabalho. No entanto, o que é mais contraditório é que essa entrada das mulheres no mundo do trabalho não significa melhores posições ou melhores salários, apesar da escolaridade feminina ser superior à masculina.

Analisando esses dados, fica mais fácil entender o porquê do fenômeno da “feminização da pobreza”, onde 70% dos pobres do mundo são mulheres. Triste realidade que parece estar longe de um fim, já que a previsão é de que a equiparação salarial entre homens e mulheres aconteça em aproximadamente 87 anos.

Marcha Mundial das Mulheres/Caxias do Sul
http://mmm-rs.blogspot.com/

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