segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Marrecas: um contraponto necessário

A imprensa caxiense, principalmente o Pioneiro, transformou a discussão sobre as obras da barragem do Marrecas em uma gincana. Mais uma vez o nosso diário deixou de lado a imparcialidade e tomou lado (isso não é de se estranhar), mas outra coisa o Roberto Nielsen, editor chefe do Pioneiro, jogou fora: a objetividade.

O contraponto é peça fundamental ao bom jornalismo, cada vez menos evidente no Brasil. Seguindo a nossa missão de mostrar o que a grande mídia não mostra, demos espaço para o outro lado. No texto abaixo, escrito pelo Biólogo, Otávio Valente Ruivo, do Instituto Orbis de Proteção e Conservação da Natureza, há a exposição dos motivos que os levam a questionar a licença ambiental para o corte de árvores da área que seria alagada pela barragem.

Logo mais publicaremos um outro texto que avalia os "12 pontos" apresentados pelo diretor presidente do Samae, Vinícus Caberlon. Boa leitura e bom senso crítico a todos.

Foto: Rogério Costanza

100 MIL MOTIVOS PARA QUE A BARRAGEM NÃO SAIA

Por Otávio Valente Ruivo
Biólogo
Instituto Orbis de Proteção e Conservação da Natureza

“Água mole, pedra dura. Tanto bate até que fura.”

A barragem para captação de água no Arroio Marrecas nem está pronta e já se apresenta como mais um grande erro no mal fadado histórico de construção de barragens de Caxias do Sul. Todas as barragens de Caxias do Sul apresentam problemas no armazenamento de água, com “ladrões” de localização desconhecidos e consequente perda de água bruta.

Ocorre que a nossa montanha, mesmo sendo formada pelo tão bem falado e tido como indestrutível basalto, apresenta forte interação com a água com o passar de muitos anos. Rachaduras são muito comuns no basalto e em seus primos como riolito, o riodacito, por exemplo, e outras variedades de rochas, feitos pela água e pelo próprio crescimento das raízes das árvores. Rachaduras pequenas, sim, porém, milhares (quiçá milhões) de rachaduras! Também são essas rachaduras que muitas vezes alimentam o próprio lençol freático e bolsões d’água no fundo do solo. Essa é a intenção do SAMAE em colocar uma cobertura no solo nu contra esses “vazamentos” para que a água do lago não entre em contato direto com esse tipo de rocha. Essa até é uma boa ideia!

A má ideia é a própria necessidade de construção de outra barragem para captação de água em Caxias do Sul. Caxias do Sul não precisa de mais uma barragem para captação de água [taxativamente]!

O Poder Público tem que evoluir com o tempo, com o mundo. Seguir as novas tendências. Estar ligado e inserido num mundo que interage com fatores climáticos que vêm, inclusive, de onde “Judas perdeu as botas”. A administração é isso. Preparo, conhecimento, planejamento de longo prazo, etc. Na administração pública, então, o planejamento deve ser muito mais cuidadoso ainda. O longo prazo no planejamento público é coisa de 50 anos no mínimo atualmente. Pensar em 100, é uma boa ideia.

Desenvolvamos, nós mesmos, a solução que precisamos. Que tal pensar em cisternas públicas ou cisternas comunitárias? Que tal pensar?

Em relação ao Sistema Marrecas, a história não está bem contada. Falta clareza, há ruído nas explicações públicas quando tentam explicar porquê Caxias do Sul precisaria de mais uma barragem.

O Instituto Orbis vem alertando há bastante tempo que a construção de barragens é um advento do Império Romano, que esteve instalado em outro tempo, em outro lugar, aliás, há muitíssimo tempo atrás. Estamos em 2012, agora. Terceiro milênio. Hora de começar a trabalhar dentro da natureza, a nossa casa. O mundo inteiro está focado nessa visão. Por que Caxias do Sul ainda está trabalhando com conceitos mais que ultrapassados?

A perda de água na distribuição e a falta de um bom controle de consumo em Caxias são inaceitáveis. Isso tudo virou 60% de perda da água tratada em 2009. O SAMAE diz que hoje estamos com “apenas” 40% de perda de água tratada e que isso está dentro da média brasileira. Ora, por favor, senhor administrador! Nos informe os custos da potabilidade da água em quase a metade da água processada em Caxias do Sul sendo essa parcela de toda água tratada (os 40%) jogados fora! O custo Caxias não pode mais ter isso em sua conta. O PIB de Caxias do Sul e o orçamento da cidade estão de longe muito acima da média das cidades brasileiras. É dentro dessa relação que deve ser feita a conta de perda da água. Comparar-nos com sabe-se lá qual cidade... Aqui NÃO É ASSIM! Mesmo a perda de 20%, aceitável pela CORSAN, no Estado todo, é demais para Caxias do Sul. Novamente, “aqui não é assim!”

Foi-se o tempo do desperdício. Muitos enriqueceram e outros tantos ganharam eleições em cima disso. Ocultavam o desperdício e propagandeavam o objetivo dos empreendimentos em cima de números gigantescos que enchem os olhos do eleitor do passado. A sociedade já aprendeu o que acontece. Estamos noutro nível. Exigimos respeito e informações fidedignas. Exigimos isenção na informação. O eleitor moderno quer objetividade e agilidade do Poder Público, porém, com eficácia. E que incluam em suas contas o custo da perda dos benefícios que a natureza nos dá gratuitamente. O quanto custará em impostos pagos pela população tentar reparar estragos feitos pela falta desses serviços que a natureza propicia gratuitamente à humanidade diariamente.

100 mil árvores mortas

Parte do ruído na entrega das informações vem por conta das árvores que serão cortadas. Não há clareza qualquer no que o Poder Público vem tentando fazer a população engolir.

1) O número total de araucárias é uma estimativa. As ONG’s apresentam o número de 10.000 araucárias. O SAMAE, de 6.000. No dia 11 de Janeiro, o SAMAE trouxe o número de 3.000 araucárias que serão cortadas no jornal de maior circulação da cidade. Ué, o que houve. Afinal o corte está proibido! Mesmo assim, 10.000 ou 6.000 é um número muito grande de araucárias, muitas delas centenárias (provavelmente a maioria!).

2) O número total de xaxins que serão retirados é um absurdo. O laudo ambiental do empreendimento diz que serão 700 xaxins. Mas houve constatação de outro número por parte de quem vos escreve.

Em expedição ainda quando a família Scopel era dona do seu pedaço de terra e lá morava desde há muito tempo, que contou com a presença de biólogos do Instituto Orbis e de professores Doutores em Botânica da UFRGS, em apenas um trecho de 1 (um) quilômetro do Arroio Marrecas quando contamos o milésimo xaxim, paramos. Haviam incontáveis mais diante dos nossos olhos!

O xaxim é uma das plantas que fazem parte da lista vermelha das espécies da flora em extinção no RS. Nesse caso, seu corte é proibido e deve ser feito o transplante de todos os indivíduos em outro local propício à espécie. Nesse caso também, como está gravemente ameaçada de extinção, deve ser feito o censo e não uma estimativa do número de indivíduos que sofrerão com a translocação. O que houve foi apenas uma estimativa horrorosa, ainda por cima.

3) O número total de árvores que serão cortadas (dentre todas as espécies, nobres ou não) jamais foi relatado pelo Poder Público. O Instituto Orbis estima (nesse caso cabe a estimativa) em 100 mil árvores que serão cortadas em toda a área do empreendimento. Dentre elas estão as mais diversas espécies de canela, ipês roxos e amarelos, cedros, araçás, além de inúmeras outras espécies e, claro, os próprios xaxins e araucárias. Lembramos que essa barragem está localizada em área de Mata Atlântica o que significa que a biodiversidade é altíssima e, por isso também, o número de indivíduos passíveis de corte é alto. Essa é uma condição inerente da nossa região.

Entendeu? O que está difícil de entender é a matemática do Poder Público de Caxias do Sul.

E por falar em matemática... Como pode um empreendimento de qualquer porte ter seu orçamento mal elaborado? Muito mal elaborado, então? Como poderia uma empresa “errar” num orçamento dentro da sua gestão? Por que o Poder Público poderia se “enganar” e aumentar em mais de 100% esse orçamento? Em quais escolas de administração e economia estudaram nossos executores de políticas públicas?

Muitas perguntas ainda carecem de respostas plausíveis, sensatas e honestas. São perguntas demais. São perguntas de cunho básico no planejamento de um empreendimento desse porte.

Mais uma: você já entendeu como será a contrapartida ambiental do município em relação aos danos ambientais que a barragem causará? Ou seja, qual a compensação ambiental para que possa ser construída uma enorme barragem em

área de Mata Atlântica? Onde ocorrerá essa eventual compensação? Nós também não. E fazer isso é obrigatório! Está na lei.

Esse modelo de desenvolvimento ultrapassado que o Poder Público caxiense está querendo que aceitemos mesmo sem que o entendamos, já era. Foi-se o tempo em que o povo resumia-se a aceitar por crer que não entendia nada. O mundo, [que bom!] mudou! Alô-u!!

Ainda nem comentamos das modificações de microclima, o que significa dizer que com a construção de uma barragem e o consequente acúmulo de água na região do empreendimento, aumentará a evaporação. Essa nova quantidade de água no ar, advinda dessa evaporação, acabará por transformar-se inúmeras vezes em cerração. Ora, dois outros problemas, então: 1) o aumento de umidade leva à facilitação do aparecimento de fungos nas plantações; e, 2) como essa administração está pretendendo levar um aeroporto para aquela mesma região aumentando o número de vezes em que teremos cerração? Quanto custará ao bolso do contribuinte o sistema de aproximação por instrumentos (ISL – Instrument Landing System) num aeroporto desses que apresentará fortes cerrações seguidamente (mais do que o normal)? Os desmandos estão beirando a hipocrisia, a estupidez e até a insanidade.

Temos certeza que a Justiça está atenta às mudanças e ao desenvolvimento do conhecimento mundial e, ainda, que está ciente, mais do que nunca, de seu papel, no Brasil atual. Assim sendo, estamos certos que rechaçará esse mau uso do dinheiro público (assim cremos). Quem sabe Caxias do Sul seja exemplo nacional e tenha o primeiro grande elefante branco da má administração do dinheiro público em relação ao meio ambiente! Esperamos que a Justiça termine por condenar o empreendimento que apresentou vícios desde a sua concepção. E, com isso, nossa classe política suba alguns degraus na escala do merecimento da população e cidade que trabalha em prol.

Mesmo sendo biólogo, eu converso, sim, sobre economia, políticas públicas, desenvolvimento e futuro da nossa região. O Instituto Orbis é uma realidade caxiense e regional e coloca-se como parceiro para que tenhamos soluções mais condizentes com o pensamento moderno, levando em conta o nosso meio ambiente. Afinal, historicamente quem sempre se deu mal nessa conjugação toda do desenvolvimento foi justamente o meio ambiente. E isso já é mais do que notório!

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