sábado, 28 de janeiro de 2012

Occupy Wall Street se tornou uma rede gigantesca, diz brasileira

Vanessa (no telão) contou, de Nova York,
as experiências do Ocupy Wall Street
Foto: Conexões Globais
Por Felipe Prestes - Sul 21

De Nova Iorque para um telão na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, a jornalista brasileira Vanessa Zettler, que participa do Occupy Wall Street desde sua gestação, falou sobre o movimento na tarde desta quinta-feira (26). “O OWS começou com a ocupação do Zuccotti Park e se tornou uma rede gigantesca de pessoas, que está ativa e faz ações políticas”, disse Vanessa.

No debate “#OccupyWallStreet: Uma economia a serviço das pessoas”, do Conexões Globais, ela explicou que o movimento não pode mais ocupar a praça onde tudo começou, mas que as atividades continuam e ganham corpo. Do dia 17 de setembro do ano passado, quando o movimento ganhou as ruas da Big Apple, até hoje nunca deixaram de ser realizadas assembleias diárias às 19h onde são tomadas decisões coletivas.

“As conversas políticas também rolam no téte-a-téte, você conhece muitas pessoas ali”, contou. Destas conversas, surgiram 120 grupos de trabalho, que organizam ações sobre os mais variados temas, daí a “rede gigantesca” citada por Vanessa.

No mês de novembro, cerca de 150 pessoas foram tiradas à força da praça pela polícia de madrugada. Regras foram impostas para acabar com o acampamento, como a proibição do uso de barracas na praça, que já tinha tendas com centro de mídia e uma biblioteca com 5 mil livros. Ainda assim, o Zucotti Park – rebatizado pelos manifestantes com o nome anterior Liberty Plaza – continua sendo o principal local de encontro, mas as atividades se espalharam por outros espaços ao ar livre e centros culturais, além, é claro, da internet.

A jornalista relatou que o primeiro chamamento para o Occupy Wall Street foi em um pôster publicado pela revista canadense, de inspiração anarquista, Adbusters, fixando, inclusive, a data de 17 de setembro. Em seguida, as pessoas se organizaram pela internet e fizeram reuniões para preparar a ocupação. No dia marcado, a polícia cercou o acesso a Wall Street, por isto o Zucotti Park, a duas quadras dali, acabou sendo o local ocupado. “Wall Street continua cercada até hoje”, contou Vanessa.

Para a jornalista, a repressão policial alimentava o grupo. A cada manifestação reprimida mais e mais pessoas se uniam ao movimento, que também foi ganhando corpo com a vinda de pessoas de outras cidades e estados, e a presença de organizações. “Começou com jovens ativistas, algumas semanas depois aderiram os sindicatos, ativistas mais velhos, as minorias”.

A brasileira analisou que a primeira reação da mídia norte-americana foi tentar diminuir o movimento pela ausência de demandas mais específicas. “Mas nós já tínhamos uma ideia muito clara de que a primeira intenção era demonstrar uma insatisfação generalizada”, disse. Ela afirmou que os “indignados” espanhóis foram uma forte influência dos ativistas estadunidenses. “O 15M teve influência direta a definitiva no OWS. A semente foi Madri”.

Renato Rovai falou sobre velhos e novos movimentos de esquerda

O editor da Revista Fórum, Renato Rovai, foi um dos participantes do debate. Ele afirmou que o OWS tem uma importância muito grande para a “globalização das lutas”, por ter como alvo o centro do capitalismo financeiro mundial e pelo slogan 99% contra 1%. O jornalista fez um panorama das lutas com apoio da web. Ele relatou que o primeiro registro foi dos zapatistas no México, em 1994. “Comunicados do subcomandante Marcos iam para a rede. Criou-se até um mito de que era ele que estava lá, no meio do mato, com um computador”.

Ele também lembrou que dois movimentos da virada do milênio, a Batalha de Seattle em 1999, e o próprio Fórum Social Mundial, em 2001, tiveram o auxílio da internet. “A Batalha de Seattle foi o primeiro movimento global convocado pela rede. Acabou com um encontro da OMC e uniu ambientalistas, sindicalistas”. Quanto ao FSM, Rovai lembrou que houve chamamentos por email e que a estratégia deu certo. “Ninguém acreditava que poderia vir tanta gente”.

Para Rovai, o desafio atual é unir as estratégias dos novos e dos antigos movimentos sociais. Por um lado, os atuais movimentos – como os rebeldes do Oriente Médio, o OWS e os “indignados” – são mais democráticos, horizontais, graças à internet. “Quem começou a militar recentemente está acostumado a decidir por consenso, com a horizontalidade. Na internet ninguém precisa levantar a mão para falar, todo mundo fala ao mesmo tempo. Enquanto isto, a grande maioria dos sindicatos e organizações ainda tem votação. Se tiver menos votos suas ideias são derrotadas”.

O jornalista ressaltou, porém, que as lutas dos movimentos tradicionais não podem ser desprezadas. “Quando você vai para a rua, a polícia te dá porrada. Novos movimentos não podem abrir mão da história construída anteriormente”. Para Rovai, o desafio é unir as velhas e novas ideias.

Jornalista italiano lembra que refugiados não fazem revoluções


O jornalista italiano Emiliano Bos, que cobre conflitos no Oriente Médio, fez uma provocação ao comparar os cerca de 1 milhão de refugiados dos bombardeios na Líbia – muitos deles que já eram imigrantes de países como Eritreia, Sudão e Etiópia – com os jovens que ocupam praças nos países da Europa, EUA e Oriente Médio. “Vocês têm certeza de que eles não têm direito a voto? Eles são os foot-voters, votam quando migram. Eles não ocupam a democracia. Eles não ocupam Madri, Barcelona e Nova Iorque, porque estes lugares já estão ocupados”, disse.

Bos afirmou que lembramos de quem ocupou praças na Tunísia e no Egito, mas que esquecemos 1 milhão de refugiados da Líbia. “Estes não protestam. Não há ninguém que possa dizer como eles estão vivendo”.

Também participou do debate a feminista Wilhelmina Trout, da coordenação da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) na África do Sul. Ela fez um histórico do movimento, de como suas integrantes procuram unir as lutas globais com as regionais com auxílio dos meios digitais. Ela relatou as dificuldades desta tarefa, ressaltando que muitas mulheres ainda têm dificuldades de acessar as novas plataformas e mostrou que em países como o Mali, por exemplo, integrantes do movimento não tem eletricidade, “muito menos internet”.

Trout disse que uma das estratégias da MMM é buscar o apoio de aliados em espaços como o Fórum Social Temático. “Queremos que movimentos aliados incluam a luta contra o patriarcado neste outro mundo possível”.

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