segunda-feira, 19 de março de 2012

Picaretagem e incompetência no concurso para o Senado

Publicado originalmente no blog Café & Aspirinas


Muito tem sido dito sobre o concurso do Senado, realizado no domingo 11 de março. Muito ainda será dito sobre ele. Quase 160 mil pessoas inscreveram-se no concorridíssimo certame, que deixou muito a desejar. Se, de início, alguns se questionavam sobre a legitimidade de um concurso para o qual não houve licitação, agora muitos se perguntam sobre a seriedade da organização.

Houve troca de cadernos de provas e faltaram folhas de resposta, mais de 10 mil candidatos tiveram a prova anulada. Houve o registro de malote de provas violado e mais de 11 mil candidatos esperam para saber se também terão suas provas anuladas. Questões foram plagiadas de diversos concursos anteriores realizados país afora. Sem contar os problemas de conteúdo e forma das provas. Há motivos para preocupação.

Os candidatos que tiveram suas provas anuladas não serão prejudicados (o mesmo não se pode dizer dos outros, que terão tido menos tempo para estudar), terão oportunidade de refazer a prova sem nenhum custo – é o mínimo que se espera – no dia 15 de abril. Mas resta explicar como é possível que o sistema que gera as provas e as folhas de resposta não tenha imprimido folhas de resposta para todos os inscritos.

Note-se que as folhas de resposta são individuais, delas constam o nome, o número de inscrição, o RG do candidato. Essas informações vêm impressas, e o candidato só precisa assinar no lugar apropriado na sua folha de resposta – e colocar sua impressão digital, sim, do candidato desconfia-se sempre. Não basta apresentar a carteira de identidade com foto e assinar a folha de presença, é preciso colocar a digital na prova para evitar fraude. Mas como faltam folhas de resposta se elas são privativas de cada um dos inscritos para aquela única prova para a qual se inscreveu? A FGV não deu muitas explicações.

Com a anulação das provas, os candidatos foram liberados às 16 horas e levaram com eles o caderno de provas. Ora, o Edital é claríssimo: “16.15 O candidato somente poderá levar consigo o caderno de questões, ao final da prova, se isto ocorrer nos últimos sessenta minutos anteriores ao horário determinado para o término das provas.” (p. 10, Edital N° 2). O horário determinado para o término das aprovas foi 20h30min, mais de quatro horas depois de os candidatos serem dispensados. A razão para não poder levar a prova é evidente, algumas provas eram idênticas para os diferentes cargos de analista legislativo. Mas a FGV não deu muitas explicações.

A Polícia Federal foi chamada para investigar o malote de provas violado. Também está sendo investigado o caso das provas clonadas de outras instituições. Há quem afirme que, se for comprovada a denúncia, as provas para os cargos afetados deverão ser anuladas, pois a clonagem fere o princípio da moralidade e talvez até o da isonomia. Isso tudo para falar apenas dos problemas que dizem respeito às provas para o cargo de analista legislativo – que perfazem 133 das 246 vagas.

Há motivos para preocupação, mas ninguém parece muito interessado em dar explicações. O próprio Senado Federal não se pronunciou até o momento. Para a instituição, a responsabilidade do concurso recai inteiramente sobre a Fundação Getúlio Vargas – embora tenha sido o Senado a contratar, sem licitação, e o membro expulso da Comissão do Concurso fosse servidor da Casa. Se os problemas elencados demonstram – no mínimo – falta de organização do processo seletivo, a qualidade das provas evidencia descaso e desleixo na preparação do concurso. Os editais já se haviam encarregado de cobrar dos candidatos registros profissionais em órgãos inexistentes ou o estudo de leis revogadas. As provas indicam que a banca organizadora não conhecia os Editais.

Nas provas para taquígrafo e revisor e redator, a banca incluiu questões de conhecimentos específicos com conteúdos que faziam parte da prova de conhecimentos gerais. Parece pouco problemático, mas o fato é que as provas têm pesos diferentes: conhecimentos gerais tem peso 1 e conhecimentos específicos, peso 2. Como serão computados esses pontos? Ou as questões serão anuladas?

Isso para não falar dos erros graves de português na prova para revisor e redator. Sim, a prova para o cargo de revisor e redator do Senado continha erros de português! Questões com duas respostas possíveis ou questões sem resposta representam 15% da prova de conhecimentos específicos para esse cargo. Note-se que essa prova tinha 40 questões e as únicas 3 que não eram de língua portuguesa eram as que se referiam ao conteúdo de conhecimentos gerais. Como se vê, há ainda provas sujeitas à anulação. Há motivos para preocupação. A FGV deve muitas explicações.

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