segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Wikileaks: Israel trabalha para estrangular economia de Gaza, mostram telegramas

Charles Nisz, no Opera Mundi

“Autoridades israelenses confirmaram diversas vezes aos funcionários da Embaixada (dos EUA) que a intenção do governo de Israel é manter a economia de Gaza funcionando em nível precário, pouco acima de uma crise humanitária”.

Este é o primeiro parágrafo de um telegrama enviado pela Embaixada dos EUA em Tel Aviv para Washington em 3 de novembro de 2008, vazado pelo site Wikileaks nesta segunda-feira, 4 de agosto.

O telegrama faz parte de uma série de documentos vazados pelo site dirigido pelo australiano Julian Assange sobre o conflito entre Israel e Palestina. Dentre os assuntos abordados na correspondência da Embaixada em Tel Aviv estão a criação do Hamas, o uso de palestinos como escudos humanos pelas Forças de Defesa israelenses, o ataque deliberado a alvos civis em Gaza, o bombardeio de hospitais e o corte de suprimento de remédios aos habitantes de Gaza.

De acordo com o documento, o Conselho de Segurança Nacional de Israel controla a quantidade de dinheiro a ser liberada mensalmente para a Autoridade Palestina. O governo da Autoridade Palestina requisitava cerca de US$ 30 milhões ao mês no ano de 2009 como piso básico de transferência, de modo a garantir os serviços básicos para a população palestina – 4 milhões de pessoas. A ideia era a de manter serviços essenciais, mas sem o estabelecimento de comércio e negócios em Gaza.

Autoridade Palestina x Hamas

No telegrama, a embaixada sugere ao governo do EUA o encorajamento das relações entre Israel e a Autoridade Palestina. Para os diplomatas, uma economia e um sistema bancário frágeis seriam adequados aos radicais do Hamas. No entanto, o governo israelense prefere repassar menos dinheiro aos palestinos de modo que o Hamas não tenha acesso à moeda israelense e que a população de Gaza não tenha benefícios econômicos, mesmo ao custo do fortalecimento do Hamas.

Em outro telegrama, datado de 23 de setembro de 1988, um diplomata americano fala sobre a visão política dos habitantes da Cisjordânia: “Muitos habitantes da Cisjordânia acreditam que Israel apoiou nos bastidores a criação do Hamas, ainda na década de 1980. O objetivo era dividir politicamente os palestinos. Philip Wilcox, responsável pelo consulado em Jerusalém, afirmava: “Não há apoio concreto, mas Israel faz vista grossa às atividades do Hamas”.

A estratégia israelense, segundo os documentos, era enfraquecer os partidos palestinos seculares, mostra um telegrama de 29 de setembro de 1989. Com a ascensão do Hamas, mais radical e de orientação sunita, haveria menos espaço para entidades como a Organização para a Libertação da Palestina, órgão liderado por Yasser Arafat no passado, e atualmente do Fatah e da Autoridade Palestina. Sem a atuação de partidos moderados, Israel não precisaria negociar com os palestinos.

Suprimento alimentar

Além da força militar, o bloqueio israelense a Gaza limita o acesso a gêneros alimentícios, combustíveis e remédios ao território palestino. Com isso, a infraestrutura local opera no limite, informa um telegrama enviado em 18 de setembro de 2009. A falta de remédios compromete o setor de saúde em Gaza e a estrutura elétrica e de saneamento no fim de 2009 regrediu ao mesmo nível no qual estava em 2008.

Para se ter ideia, o suprimento alimentar na região em agosto de 2009 era de 2.600 caminhões. Isso representava 20% do total de alimentos que entravam em Gaza em junho de 2007. O ingresso de combustível era capaz de prover apenas dois terços da usina elétrica local. Para iluminar Gaza, os palestinos usavam petróleo egípcio, trazido através dos túneis na fronteira com custo de US$ 0,60 por litro. Já o petróleo israelense custa US$ 1,80 por litro.

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